Sonhava com dias melhores, mas será que eles realmente poderiam vir?
Dizem que felicidade demais estraga...
É melhor então não abusar!
Ao conseguir voltar das imagens projetadas em sua mente de um futuro, quem sabe, não tão distante ou mesmo pouco provável, onde haveria uma casa imensa com alprende e vários tucuns armados a convidar a um bom balanço ou descanso após o almoço, ladeada por vários pés-de-manga - rosa, espada - cajueiros - grandes, imensos; ornada, mais próxima, por um pequenino jardim com mini-rosas, éricas, lírios e copos-de-leite... dela. Sim, DELA!
E a passarela... ah... extensa, até o portão de entrada, seguida por palmeiras imperiais e um exuberante gramado a perder de vista...
Mas isso seria futuro, como já lhes disse!
O presente não lhe era menos caro: o sol, aquele mesmo que o acordara, refletia-se na cristalina água à sua frente, naquele paraíso, cobrindo-a de um manto dourado, quem sabe de paetês, bordado delicadamente pelas horas que passavam arrastadas...
A areia, branca como no local da música do Caetano, acariciava seus pés, massageando-os...
Na outra margem, o verde firme desmantelava-se ao ser capturado pela água...
Respirou fundo! Então a viu... ao seu lado... ao alcance de sua mão...
Não seria bom que o sonho acabasse ali! Melhor não ousar tocar!
Cauteloso, como se ao seu mínimo olhar fosse despertá-la, contemplou:
Seus pés, pequeninos, delicados, em perfeita harmonia com suas pernas torneadas que, como ele mesmo gostava de se vagloriar, estavam mais bonitas desde que ele as tocara...
Suas ancas, salientes, seguidas pela delgada cintura, aquela mesma cintura que chamou sua atenção pela primeira vez quando, um dia, ela se espreguiçara e deixara inocentemente revelar algo mais sob sua calça jeans...
...adorava tomá-la em seus braços, comprimindo o corpo dela contra o seu, sentindo seus seios, seu calor, percebendo como tinham um encaixe perfeito!
E seus ombros, aqueles largos ombros morenos que a tornavam imperial, com postura impecável de uma princesa, moldados, segundo ela, em seus anos de natação.
Ombros que eram costumeiramente encobertos pelos longos cabelos negros, um tanto iluminados em suas pontas pelo sol daqueles dias de lazer!
Seu pescoço, esguio, arrematado em sua nuca, sabidamente seu ponto fraco, a exalar perfumes que, por vezes, o deixaram sem fôlego...
Seu queixo, com o mais perfeito sinal, pensando ele, há um certo tempo, ser desenhado diariamente por puro charme, uma forma de chamar atenção, talvez!
Sua boca... ah, aquela boca! Dona de um beijo tão ardente, tão sedutor, tão...
- Meu bem?!
E ela então abriu seus olhos: negros olhos grandes, expressivos!
Ele aprendera exatamente o que aqueles olhos queriam dizer, sempre! Mesmo ela querendo disfarçar por vezes sua raiva ou tristeza...
Ela sorriu, levantou-se e sentou ao seu lado...
Seus olhos tentavam ler os dele, como imaginando o que estava pensando...
- Seu bobo... Me deixou dormir! Devia ter me chamado...
Beijaram-se...
O mais saboroso e tenro beijo...
E o mais sincero!
Realmente estava acordado! E como era bom continuar sonhando!
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